Ensaio de Orquestra

Por

Fellipe Teixeira

Introdução

Para os expectadores do espetáculo, é apenas aquilo ali. Eles chegam, sentam, assistem, aplaudem e vão embora. Mas pra você é diferente, pra você envolveu cansativos ensaios, estresse, conversas até que no dia algo (ou tudo) deu errado. Mas aí o público foi embora e você vai continuar tua vida ali junto com os músicos. Mas como encarar o dia seguinte? Como encarar o pior, a consciência te acusando quando repousar a cabeça no travesseiro? Pois é, é difícil mas são situações que precisam ser dominadas e superadas.
Infelizmente é muito comum alguns maestros apontarem a batuta em direção a qualquer músico do grupo, menos para si. Eu particularmente sempre tento buscar os culpados de dentro pra fora, trago pra mim a responsabilidade de qualquer eventualidade, e na maioria das vezes a culpa é sim do regente. Mas vamos lá...

Aceitando

Segundo o Dicionário Online de Portugês¹, a “habilidade de se adaptar com facilidade às intempéries, às alterações ou aos infortúnios” chama-se resiliência. Em termos psicológicos: “A resiliência pode ser definida como uma capacidade universal que possibilita a pessoa, grupo ou comunidade prevenir, minimizar ou superar os efeitos nocivos das adversidades, inclusive saindo dessas situações fortalecida ou até mesmo transformada, porém não ilesa”.² Vamos utilizar este termo com muito cuidado para não cometer erros, afinal de contas minha área de estudo é a música, não a psicologia.
O maestro que sofreu o tal “trauma” deve procurar em si mesmo e naqueles que o cercam forças para se recuperar do ocorrido (se foi tão grave assim). Da mesma forma, ainda que não seja no pós, mas durante, pois apenas aqueles que estão no palco, especialmente dirigindo, sabem qual é a sensação de estar perdendo o controle de algo. Manter a concentração, os ouvidos abertos e não se permitir perder-se nos próprios pensamentos, conversando consigo mesmo, pois tira a concentração. Manter a calma e tentar resolver o que for possível ali é o importante.

Buscando as soluções

Posteriormente é muito comum ver os dedos apontados buscando os culpados. Mas ao invés disso, o correto é a busca por soluções dos problemas. A tomada da primeira e errônea postura afasta cada vez mais os músicos de si, demonstrando sua total inabilidade em gerenciar momentos de crise e fazendo desmoronar sua posição como líder. Em outros momentos já falei sobre a importância de reconhecer as qualidades dos outros e aqui agora falo na importância no reconhecimento dos próprios erros para que através deles possa evoluir.

Arrogância é um sentimento de superioridade para com o próximo, caracterizado pela falta de humildade, pelo desprezo do valor alheio, pela falta de capacidade de empatia. Um líder arrogante jamais reconhece seu erro, assim como não reconhece a capacidade dos seus liderados, provocando a desmotivação, devido o líder se coloca(sic) muito acima de seus liderados, desprezando suas idéias, seus talentos, inibindo e impedindo o desenvolvimento da equipe.³

Quando se diz em buscar os erros implica em muito mais que o óbvio, o erro em si, mas em ir ao cerne da questão e buscar o que se deixou passar ao longo do processo, qual fato e por qual motivo desencadeou os erros. A partir dessa análise elaboram-se os planos para que os erros não se repitam.

Quando uma falha é detectada, é essencial ir além das causas óbvias e superficiais e buscar entender a raiz do problema. Isso requer disciplina – melhor ainda, entusiasmo – no uso de análises sofisticadas para assegurar que as lições certas sejam aprendidas e as soluções certas[4]

E aí?

E aí que o objetivo da coluna desta quarta foi falar sobre os erros no concerto e o que fazer a respeito. Todos nós estamos sujeitos aos erros. Lembro uma vez em um festival em que eu estava muito doente e tinha um recital, a obra era uma fuga de Mozart. Acontece que o chefe de naipe dos violoncelos entrou, sem que eu tivesse dado entrada, um compasso antes adiantando a resposta. Em consequência, o naipe foi atrás dele. E aí? Aí que eu olhei e pedi pra parar, só que o moço não tirava a cara da partitura. Resultado? “Sorriam e acenem, rapazes, sorriam e acenem” Chefe (Pinguim de Madagascar). Isso poderia ser evitado? Bem, não sei, agora eu presto mais atenção nos naipes onde eu imagine que irá eclodir algum erro (mesmo que nos ensaios isso nunca tenha ocorrido). De todas as situações podemos tirar excelentes aprendizados para que os erros não voltem a acontecer.

Dicionário Online de Português < http://www.dicio.com.br/> acessado em 26/07/2016
BUENO, Valdemir. Impactos das atitudes negativas dos líderes sobre os liderados Ver. Npi/Fmr, set. 2011. Disponível em: <http://www.fmr.edu.br/npi.html>
ANGST, Rosana. Psicologia e resiliência: uma revisão de literatura. Psicol. Argum. 2009/ jul./set.
EDMONDSON, Amy C. Estratégias para aprender com o erro. Disponível em: < http://hbrbr.com.br/estrategias-para-aprender-com-o-erro/>



¹ http://www.dicio.com.br/resiliencia/
² Grotberb (1995) apud Mota, Benevides-Pereira, Gomes & Araújo (2006) apud Angst (2009, p. 254)
³ Bueno, 2011. p. 9
[4] Edmondson, 2014

Alberto Ginastera ( 1916 – 1983) – Suíte Danzas de Estancia (1941) - Notas de Concertos I

I – Los trabajadores agrícolas(Os trabalhadores agrícolas);
II – Danza del Trigo (Dança do trigo);
III – Los peones de hacienda (Os peões da fazenda);
IV – Danza final (Dança final) – Malambo.

Alberto Ginastera ( 1916 – 1983) – Suíte Danzas de Estancia (1941): Nascido na Argentina, Alberto Ginastera é reconhecido como uma grande coluna da música américo-latina do século XX. Em suas obras podemos observar a destreza com qual adapta temas do cotidiano latino, desde crenças religiosas, paisagens e modos de vida nos pampas e andes, com melodias características, adaptando-os à formas ditas da música europeia, como ballets, suítes, óperas e sonatas com os requintes revolucionários da música do século XX. Durante a década de 1940, após formar-se no Conservatório de Buenos Aires, Ginastera foi para os Estados Unidos onde teve aulas com Aaron Copland em Tanglewood, ou tro importante compositor americano do século passado.
A Suite Danzas de Estancia, com 4 movimentos, pertence originalmente ao ballet Estancia op. 8, encomendado por uma cia. de ballet argentina, que por problemas técnicos só veio estrear a obra completa em 1951. Tal ballet foi escrito a partir da obra Martin Fierro, do escritor também argentino, José Hernández, que descreve a heroica vida dos gaúchos nos pampas. Neste ballet, um jovem vindo da cidade tem que dominar todas as habilidades dos gaúchos para ganhar o coração de sua amada. Antes da estreia oficial, porém, Ginastera retirou do ballet as quatro danças e assim fez a Suite Danzas de Estancia, estreado em 1943. O primeiro movimento, Los Trabajadores agrícolas, descreve, como o próprio título já diz, os trabalhadores do campo no exercício de seus ofícios, conduzindo de forma bastante enérgica. O segundo movimento funciona como um interlúdio lírico, um pouco mais lento, elemento de ligação para o terceiro movimento, enérgico e com muitas evoluções rítmicas, Los peones da hacienda. O quarto e ultimo movimento, Danza final – malambo, é caracterizado por uma dança local argentina que figurava competições entre os gaúchos (vaqueiros argentinos).

Nota por Fellipe Teixeira

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