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        Uma das missões do ECIM é incentivar e fomentar a produção de escrita sobre os mais diversos assuntos relacionados e co-relacionados ao campo da educação musical, englobando aspectos metodológicos, históricos, sociais, criativos, performáticos, etc. Tais textos podem ter o caráter inter e transdisciplinar, atendendo a uma necessidade de múltiplas conexões pautadas nos estudos científicos da educação musical mundial. Logo, é perfeitamente comum, neste espaço, a publicação de textos que tragam referências diretas de áreas como a sociologia, etnomusicologia, musicologia histórica, psicologia e qualquer outra que venha enriquecer as discussões propostas pelos autores, que por sua vez, têm o mote da liberdade de expressão como o principal condutor em seu processo criativo.

       

        Disponibilizamos um espaço para que os educadores musicais e acadêmicos da música em geral possam publicar colunas regulares sobre suas práticas, reflexões e assuntos de interesse.  Vale enfatizar que, os autores das colunas ECIM  são docentes e pesquisadores muito atuante em diversas áreas da educação musical, que aceitaram gentilmente o convite de compartilhar seus pensamentos, contribuindo enormemente no fortalecimento de nossa área.

 

        Gratidão a todos vocês, autores​, leitores e pessoas que entendem que, sem a música, a vida perde consideravel parte de seu sentido.

José Luann Veiga

Direção Geral

O regente além da batuta: o ensaio como ambiente de ensino/ aprendizado nos grupos amadores

Ensaio de Orquestra

Por

Fellipe Teixeira

Introdução

Alguns sabem e outros ignoram, mas além de interprete e performer o maestro tem a função de professor, atividade que floresce (ou deveria) onde é mais imprescindível: no ensaio. Especialmente no âmbito dos grupos jovens ou amadores, sejam orquestras, bandas ou quaisquer outras formações instrumentais, o regente se reveste da função de professor para que muito além de produção de sons haja entendimento real de tudo aquilo o que está acontecendo entre as quatro paredes da sala de ensaio. Para falar de uma forma mais direta, não basta unicamente baixar os braços e esperar que o grupo toque lindamente a obra, e mesmo que o faça, será que realmente estão fazendo de forma plena?
Em sua obra Introdução à metafísica dos costumes, Kant afirma que posso de toda forma ser constrangido a executar uma ação, porém nada pode me obrigar a aceitar os resultados que dela proceda[1]. Da mesma forma, pode os músicos que estão sob a minha batuta tocar da forma que estou sugerindo, mas jamais, a não ser que queiram, irão aceitar os resultados dela provenientes, o que nos leva a outra pergunta: de forma efetiva, se não há a aceitação daqueles que de fato estão empunhando o instrumento para com o resultado, houve então consumação artística? Na minha opinião, não. Não adianta de nada levar ao público algo se nem mesmo os músicos estão entendendo o que estão tocando, em muitos casos é um automático preocupante, tocar por tocar, sem espírito, contrariando completamente todas as definições que conhecemos sobre arte. O velho problema da rotina também pode afetar de maneira preocupante na atividade musical e é contra ela que o regente também deve lutar na condução do seu grupo.

As ferramentas de trabalho

Transformar o ensaio em um ambiente de ensino/ aprendizagem atrativo da forma que estou abordando pode até parecer um pouco mais complexo do que é, porém acredito que a fórmula é simples. Acima de qualquer coisa, saber o que está fazendo é o ponto chave de qualquer ação. O conhecimento total daquilo que se propõe levará automaticamente à reflexão daqueles que estão a sua volta, que não significa dizer que você vai parar o seu ensaio para longas prosas sobre o espírito da composição (em outros momentos falaremos sobre os excessos de conversas nos ensaios) mas de maneira objetiva, ter consciência daquilo que se almeja já adianta muito no resultado final. Nas palavras do maestro Ricardo Rocha, “o regente precisa saber o que quer e como quer, o que, antes, o obriga a saber aonde quer chegar”.[2]
A comunicação vai ser a ferramenta mais importante na demonstração de seus pensamentos, isto consiste em falar o essencial de forma objetiva, clara e convincente. Podem e vão com certeza aparecer problemas musicais a todos os instantes, questões como dinâmicas ou expressões, equalização dos instrumentos, adequações estilísticas e até problemas de leitura, e nessas horas explicar os motivos pelos quais está propondo determinada resolução de problemas também ajuda a solucioná-los. Dependendo do nível do grupo, como é o caso de orquestras ou bandas neófitas musicalmente, podemos utilizar também exemplos mais lúdicos e imaginários como a famosa linha que passa sobre o grupo e se houver qualquer oscilação na dinâmica (no caso o pp) ela será rompida, sem no entanto abusar do bom senso. Todos os meios podem tornar-se eficientes se souber bem utiliza-los.
Ciente dessas questões, maestro jamais pode afastar o fator humano, as limitações individuais e coletivas. É exatamente sobre elas que se deve trabalhar, no ritmo que não entedie o mais forte nem deixe o mais frágil para trás, que ofereça desafios constantes para ambos. Esta pode ser uma das tarefas mais desafiadoras: encontrar o ritmo ideal para cada ensaio, pois cada dia será uma experiência diferente dada as experiências diárias de cada um.
Outra reflexão muito importante quando se trata de grupos amadores é a de que cada músico está ali pelo único motivo de sentir-se bem naquele meio, e esta sensação deve ser respeitada ao aproveitar cuidadosamente o tempo de cada um. Na sociedade contemporânea onde se valoriza cada vez mais a velocidade das informações, dedicar grande quantidade de tempo à determinada atividade, ou ainda mais, entregar seu tempo para que alguém tome conta é uma grande responsabilidade. O processo em cada realidade social vai trazer diferentes perspectivas sobre a forma mais apropriada para a boa condução do grupo, cada peculiaridade deve ser observada com cuidado na implementação dos planos.

Conclusão

A reflexão é exercício diário para a evolução do ser em diferentes âmbitos. Pensar, questionar e pesquisar são práticas que devem ser trabalhadas diariamente por todos, ainda mais por aqueles que desempenham papel de liderança e levam consigo a responsabilidade de incentivar, cativar e em coautoria produzir música, neste caso. Atitudes como essas não só trazem respeito para quem pratica como também respeitam aqueles que confiam em seu direcionamento, pois é disso que se trata, uma relação de respeito mútuo entre sujeitos buscando juntos um bem comum.

Referências Bibliográficas

[1] KANT, l. Fundamentação da metafísica dos costumes. Edipro, 2003, p. 225.

[2] ROCHA, Ricardo. Regência: uma arte complexa: técnicas e reflexões sobre a direção de orquestra e corais. Ibis Libris, 2004, p. 26.

Anexos

Palavras-chave

ensaio

prática em conjunto

regência

orquestra

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