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        Uma das missões do ECIM é incentivar e fomentar a produção de escrita sobre os mais diversos assuntos relacionados e co-relacionados ao campo da educação musical, englobando aspectos metodológicos, históricos, sociais, criativos, performáticos, etc. Tais textos podem ter o caráter inter e transdisciplinar, atendendo a uma necessidade de múltiplas conexões pautadas nos estudos científicos da educação musical mundial. Logo, é perfeitamente comum, neste espaço, a publicação de textos que tragam referências diretas de áreas como a sociologia, etnomusicologia, musicologia histórica, psicologia e qualquer outra que venha enriquecer as discussões propostas pelos autores, que por sua vez, têm o mote da liberdade de expressão como o principal condutor em seu processo criativo.

       

        Disponibilizamos um espaço para que os educadores musicais e acadêmicos da música em geral possam publicar colunas regulares sobre suas práticas, reflexões e assuntos de interesse.  Vale enfatizar que, os autores das colunas ECIM  são docentes e pesquisadores muito atuante em diversas áreas da educação musical, que aceitaram gentilmente o convite de compartilhar seus pensamentos, contribuindo enormemente no fortalecimento de nossa área.

 

        Gratidão a todos vocês, autores​, leitores e pessoas que entendem que, sem a música, a vida perde consideravel parte de seu sentido.

José Luann Veiga

Direção Geral

O desenvolvimento do trabalho musical com grupos amadores: compartilhando experiência

Ensaio de Orquestra

Por

Fellipe Teixeira

Introdução

A todo momento nos deparamos com diversas situações que ou nos deixam realmente numa condição de desconforto, e isso é bom, ou as ignoramos e seguimos em frente sem dar atenção. Por desconforto, neste contexto, entendo como situação imprescindível para o crescimento pessoal e, infelizmente o grande caso é de pessoas que simplesmente ignoram o desconforto e perdem chances reais de fazer um pouco mais de diferença no mundo (por mundo eu englobo não só a terra e seus bilhões de habitantes, mas também seu país, estado, cidade, bairro, rua, seu ciclo social com as pessoas que estão ao seu redor).
Muitos acreditam que sua singela participação na realidade social a qual estão inseridos já é suficiente para salvar-lhes as cabeças da decapitação causada pelo peso da consciência por não ter uma participação efetiva naquilo que deveria ter. Obviamente não é o caso de todos, mas vale a pena uma reflexão geral.
Desta forma, como realmente deve ser desenvolvido um trabalho musical por um regente num projeto social (sejam entidades religiosas, filarmônicas, ongs e afins)? É um caso a se pensar pois tal trabalho anda de mãos dadas com necessidades bem específicas, obrigando aqueles que estão à frente tomarem posições coerentes para o desenvolvimento não só musical, mas também humano. Os pesos aplicados em cada ponto desta vara de equilíbrio do líder na corda bamba do seu projeto devem ser cuidadosamente analisados para que não penda nem para um lado nem para o outro, resultando na queda.
Geralmente observo alguns problemas comportamentais dos maestros que atrapalham, e muito, o desenvolvimento de seus trabalhos, quase como uma auto sabotagem. O primeiro problema, chamarei de “complexo de vira-latas”, um fenômeno comum no qual o indivíduo se acha incapaz de progredir junto dos seus com aquela famosa afirmação: “não tem nenhum profissional aqui, nós nunca iremos conseguir fazer um repertório ‘tal’ porque não temos condições técnicas de crescer para isso, não adianta vir ninguém aqui porque vai sair tão desmotivado quanto eu que já faço tudo isso com tanto trabalho (...) já estou cumprindo minha função suficientemente bem e estamos todos confortáveis”. Outro caso comum é o extremo oposto do anterior, em que o maestro quer colocar músicas que estão muito além do desenvolvimento técnico do seu grupo, acompanhado do seguinte pensamento: “Mesmo que meu grupo não tenha nível técnico eu vou atolar eles de músicas difíceis, eles não conseguem tocar nada direito mas não importa, eu quero que eles toquem isso porque acho bonito”.
É muito complexo lidar com essas situações e eu acredito que a única forma de combater esses pensamentos é deixar-se perceber o que está acontecendo a sua volta, de maneira que esta tomada de consciência o liberte dos velhos paradigmas para dar lugar ao novo. Não é algo fácil de fazer, mas sem a tentativa jamais alcançara o êxito.

O processo

Aqui vamos levar em consideração as seguintes máximas: em um grupo profissional, o objetivo é a realização musical, obviamente sem excluir a realização pessoal, mas esta será o resultado daquela; já no grupo amador o objetivo é a realização pessoal e através desta chegaremos à realização musical. Digo dessa forma porque nos grupos profissionais os músicos que ali se encontram estão todos com a mesma finalidade, a de fazer música, e são todos profissionais assalariados para tal feito, estando submissos às estatutos e regimentos (o que ainda assim não dá amplos poderes ao maestro de fazer o que bem entender da vida de todos). No caso do grupo amador é mais delicado ainda, pois as pessoas que os procuram muitas vezes chegam sem a menor ideia do que é viver de música e classificam a atividade na qual estão se inserindo como passa tempo, um momento de prazer na tumultuada vida contemporânea.

Destacando:

Grupo profissional: Realização pessoal através do musical;
Grupo amador: Realização musical através do pessoal.

Amparados por estes pressupostos chegamos ao momento de reflexão para a realização do papel de organizador e coordenador, objetivando sempre o resultado humano enquanto busca no desenvolvimento das atividades. De toda forma, não podemos abrir mão também do resultado musical, pois também vai interferir diretamente na satisfação daqueles que estão inseridos nos grupos.
Antes de tudo, é necessário ter em mente (e se possível no papel) um plano de ação contendo os objetivos propostos para aquela temporada. Não falei antes, mas falo agora, é importante também termos um limite para os trabalhos dentro desses objetivos, uma data de início e uma data de fim, dentro dos quais irá jogar com seu plano de ação onde obviamente a culminância deve ser em concertos abertos para a sociedade que funcionaram não só como estimulo para os músicos, mas também para demonstrar àqueles que estão de fora daquela realidade para que também percebam a importância que trabalhos assim cumprem na sociedade.

Sistema de temporadas

Este sistema de concertos/apresentações oferece muito sucesso na realização dos planos. Consiste, basicamente, em elaborar uma temporada de 3 – 6 meses onde você trabalhará um repertório bastante específico (que será abordado no próximo tópico) e que ao final desses meses de ensaio ocorrerá uma apresentação principal que também não exclui a possibilidade de ensaios abertos para ir adaptando os músicos ao público. Quanto maior a temporada, maiores as quantidades de concertos e de lapidar o repertório. Assim, por exemplo, numa temporada de seis meses poderá ensaiar durante os três primeiros meses o repertório e nos próximos fazer um concerto por mês, sem cessar os ensaios. Ao fim da temporada inicia-se novamente o processo de planejamento para a temporada que virá.

Repertório

O repertório pode ser abordado de duas formas: com ou sem o consentimento do grupo musical. Ainda acredito que neste contexto o fator democrático é um diferencial de grande importância para que os integrantes do projeto se sintam ainda mais incluídos por participarem da escolha do programa. Assim, escolhido o repertório baseado em gêneros, estilos, compositores etc, o regente tomará o cuidado para que as técnicas oferecidas pelas músicas atendam bem a todos os músicos, desde o mais neófito ao mais maduro.
A questão da dificuldade oferecida nas obras pode ser resolvida pensando que deve oferecer desafios para o crescimento de todos, mas desafios obviamente transponíveis, pensar em desafios impossíveis só vai minimizar a confiança dos músicos. O estimulo ao estudo deve ser constante e você, enquanto líder, também deve demonstrar o mesmo respeito pelas obras escolhidas que espera que seus músicos tenham, estudando minuciosamente cada detalhe e preparando antes dos ensaios as resoluções dos problemas técnicos que possam ocorrer durante os ensaios. Para relembrar sobre ensaios, basta consultar a minha coluna anterior aqui.

Ensaios

Os ensaios, assim como o todo, devem ter metas bem estabelecidas. Gosto de ao final de cada ensaio tocar a música toda que estamos trabalhando ou se esta não estiver pronta, tocar alguma outra que já esteja, desta forma os músicos não ficarão com o sentimento de trabalho incompleto, sempre com palavras de incentivo.
Outra atitude interessante é não insistir demais nos erros e não desanimar os integrantes do grupo. Não quer dizer que precise ignorar os erros, pois estes devem ser corrigidos, mas não adianta foca o ensaio inteiro num mesmo trecho de determinado naipe. Pondere algo entre 5 minutos para cada naipe, se não resolver, pule para outro e depois retorne ao inicial. Se ainda assim não resolver, não estresse mais ainda o que já está tenso, deixe como meta para outro ensaio e procure outros pontos que necessitam de atenção.

Conclusão

Lembre-se sempre do fator de desenvolvimento humano e dos objetivos traçados para cada temporada, como foi dito, pois será de grande valor e os músicos terão como força para poderem estudar e se dedicar ainda mais. Dessa forma você irá conseguir que gradativamente o nível técnico deles se aprimore sem necessariamente este ser o objetivo maior, mas que quando menos esperar o grupo estará fazendo repertórios cada vez mais elaborados.
Aqui não é um manual de instruções, é apenas um compartilhamento de experiências de forma bem generalista, umas empíricas e outras com embasamento científico, mas que comprovadamente já deram bastante certo para mim e para outros que também adotaram-na. O que realmente importa é que após a leitura desse texto você comece a se perguntar sobre como está conduzindo o teu trabalho. Crie, adapte, pegue emprestadas as diversas ferramentas que disponibilizamos hoje em dia na era do conhecimento, seja adepto da interdisciplinaridade pois muitos conteúdos você pode encontrar em artigos de administração e psicologia, e não permita a si mesmo o comodismo pois querendo ou não é uma grande porta para a hipocrisia.

Referências Bibliográficas

Anexos

Palavras-chave

grupos amadores

regência

ensaio

orquestra

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