Música é Vida!

Por

Felipe Burgos

Dando continuidade à série, irei ponderar acerca de um ponto que atinge uma quantidade considerável das pessoas que falam não existir mais música boa no nosso país: o comodismo. Percebo que temos no Brasil pessoas inseridas em uma cultura saudosista e/ou inerte. É um costume muito limitador, mas há muitas pessoas esperando que tudo caia em suas mãos, entretanto pouco se movimentam para encontrar além do que já têm.
Não dá pra esperar que em canais de televisão ou as rádios compromissadas apenas com o consumo em massa leve a seus programas maçantes alternativas geradoras de pensamentos e estéticas musicais mais variadas. Achar que isso vai acontecer é inocência ou comodismo? Pode ser que em um momento ou outro da programação apareça algum(a) artista pouco conhecido apresentando seu trabalho autoral, mas são eventos muito raros, porque levar coisas diferentes constantemente poderia dar ao telespectador um olhar mais abrangente, e essa não é a intenção desses veículos de comunicação ferramentas da indústria cultural. Assim, acredito que falta interesse de algumas pessoas em procurar outros caminhos, e a internet é um deles.
Quero deixar claro que não estou fazendo esse discurso afim de atacar os produtos artísticos produzidos para a grande massa, mas sim, demonstrar que há uma rica produção fonográfica em diversas vertentes no Brasil, para que o leitor enxergue com mais atenção o que lhe rodeia.
É importante considerar a internet como meio de busca desses novos sons até porque esse passou a ser um dos principais meio de divulgação de todo e qualquer trabalho. As cantoras, os cantores, as bandas, os artistas de maneira geral se adequaram, ou estão se adequando, a essa plataforma que é utilizada no mundo inteiro e pode ainda gerar algum retorno financeiro. A grande diferença para o consumidor é que ele terá que procurar o que ele quer e talvez isso impeça muita gente de se mobilizar para tentar encontrar algo.
Existem canais no “You Tube” que lidam apenas com novos trabalhos musicais no Brasil. Há o “Soundcloud”, plataforma projetada para hospedar áudios, e lá encontramos uma quantidade imensa de trabalhos que podem nos mostrar que se faz muita coisa boa no Brasil. Além dessas duas plataformas existem outras, mas as que irei falar serão apenas essas por serem as que eu uso com mais frequência. Há de se considerar que existem pessoas ainda sem acesso à internet, mas essa minha fala é baseada em pessoas que já me falaram a famigerada frase título dessa seriação e sei que todas elas têm esse acesso à esses caminhos.
Esse tipo de situação também vale para quem gosta de escutar rádio. A maioria das estações radiodifusoras estão conectadas com a transmissão de conteúdos de massa, seguindo a mesma linha das emissoras de televisão. Entretanto, existem as estações que lidam com músicas que fogem do que é apresentado em grande quantidade, naturalmente é nesse tipo de frequência que encontraremos coisas menos conhecidas, daí daremos menos margem para a famosa fala injusta que poderíamos vir a proferir. Lembro também das rádios virtuais que estão na internet, algumas são direcionadas a um determinado gênero musical específico e outras apresentam uma programação com conteúdo mais variado. Tudo depende do interesse de cada indivíduo, pois só encontraremos muita coisa boa sendo produzida, se procurarmos muito.
Seguindo com a proposta da coluna, irei sugerir a audição de um cara de nome artístico particular: Cícero.
Cícero já inicia chamando os olhares por sua opção enquanto nome artístico, na qual vejo que ele foi muito feliz, por esse ser um nome muito popular no nosso país, por vezes descreditado por alguns. Além disso ele não colocou o sobrenome, costumeiramente presente.
O compositor carioca já um dos artistas da nova geração propagador de seu próprio trabalho na internet. Seu primeiro álbum “Canções de Apartamento”, foi lançado em 2011 e está disponível para download, com capa e encarte, em seu site. Nesse disco, Cícero apresenta características sonoras de alguém que bebeu da água tropicalista, pois suas músicas misturam o rock com a música brasileira, utilizando ritmos como marcha de carnaval, samba-reggae e bossa nova, gerando um produto autêntico. Suas letras são recheadas de metáforas para designar relações do ser humano com ele mesmo e a cidade na qual está inserido.
Em 2013, Cícero lança o álbum “Sábado”, e esse, pra mim, é o trabalho mais peculiar do compositor, acredito que ele chega em um resultado aonde explora uma sonoridade minimalista. Suas harmonias são repetitivas e as melodias também, entretanto com momentos em que elas saem do convencional. Outro ponto importante é que suas letras são claramente poesias, juntamente com suas disposições no encarte confirmam características de poesia concreta.
O seu mais recente trabalho é “A Praia”, lançado em 2015. Cícero mais uma vez segue seu caminho por letras consistentes, fala da vida urbana e o que dela recebemos, relações sociais, afetivas e culturais, além de poluição e consumo. Seu leque de instrumentação amplia adicionando alguns metais e cordas, mas não deixa de manter seu violão sutil, sua guitarra “clean” - e às vezes com pouco drive, bateria sempre tentando ser simples, mas incomum, e os teclados e sintetizadores marcantes e sem exageros.
Sendo assim, em apenas duas edições dessa série, podemos constatar a pluralidade de material musical sendo produzido no Brasil, e o melhor de tudo, é que Cícero e Marcelo Jeneci estão seguindo uma linha interessante de não seguir um rótulo. Antes de qualquer coisa o que está sendo feito é música! Com isso, espero que possamos nos questionar: será que não existe música boa atualmente no Brasil ou eu que não estou me disponibilizando a procurar e escutar esses novos sons?
Boa apreciação, boa reflexão e até a próxima.

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