Música é Vida!

Por

Felipe Burgos

Será?
No nosso dia-a-dia, escutamos diversos tipos de frases que são ditas com tanta imposição e certeza que, por vezes, acreditamos nelas por um tempo. Até que em meio a nossas mudanças podemos em algum momento refletir sobre isso, levando-nos a questionamentos voltados a caminhos mais abrangentes, expansivos e alargados.
Nesse mês, dou início a uma série de publicações - às vezes sucessivas, às vezes intermitentes, e sem saber quando irei findar – nas quais trarei sugestões de produções musicais brasileiras atuais, de 2008 até o dia em que eu estiver escrevendo. Com isso, pretendo questionar a famigerada assertiva, título da seriação; renovar-me, dando atenção aos novos produtos fonográficos não midiáticos (às vezes vinculados pela mídia de massa também); e tentar constatar que estamos reclamando de barriga cheia. Vale lembrar que não irei fazer essa série de uma vez só, porque estarei escutando coisas novas paulatinamente, e vão por mim, não é pouca coisa. Avante!
“Não se faz mais música boa no Brasil!”. É comum ouvirmos esse tipo de posicionamento de gente com mais idade, sendo compreensível a sua colocação por ter vivido em algum período histórico importante para a música brasileira, com inovações estéticas, engajamento político e percepção de mundo mais romântica e poética. Os mais novos também não escapam. A única diferença é que eles dizem: “Não tem música boa no Brasil!”. Crianças e adolescentes são bombardeados com produtos do mercado pop estadunidense e têm esse tipo de música como superior ao que se produz no Brasil. Se escutam algo brasileiro, deve ser algo muito veiculado pela mídia massiva ou que seja, quase totalmente, uma cópia do que eles ouvem da música pop dos Estados Unidos. Quero deixar claro que não estou me colocando contra a música estadunidense, pelo contrário, sei que nossa música tem em seu hibridismo a música norte americana, entretanto contesto o fato de colocarem-na como única forma de se fazer música no mundo. E mais, elas apresentam muita resistência em ter contato com o que é brasileiro, independentemente de ser antigo ou novo. É comum, também, ouvirmos isso de gente que, independente de idade, acredita que seu gosto musical é superior ao de outras que são (ou estão) inseridas em outras culturas, só porque ouve Villa-Lobos e não ouve Rap, ou porque ouve João Bosco e não ouve música experimental, só porque ouve o Caetano de 1968 e acha que o de 2012 perdeu a genialidade, ou qualquer coisa do tipo, por explorar caminhos como o do Funk Carioca.
A fala que utilizo como objeto de reflexão da coluna de hoje me conduz às seguintes perguntas: será que realmente não se faz mais música boa, atualmente, no Brasil? O que é música boa? Boa pra quem? Boa pra quê? Com tantos brasileiros fazendo música, será que ninguém se renovou e buscou transformar os caminhos já percorridos anteriormente? Será que nenhum compositor ou arranjador ousou por novos caminhos? Ou será que as pessoas não querem se renovar? Ou será que as pessoas têm preguiça em buscar novas sonoridades? Ou será que as pessoas são realmente prepotentes a ponto de achar que tudo parou no tempo porque elas estão engessadas também? Ou porque têm medo do novo? Ou porque o saudosismo toma conta de suas visões, colocando-os apenas para olhar para trás, enxergar apenas o passado como única perspectiva? Enfim, tentarei (ajudem-me, por favor!) responder algumas dessas perguntas e que as respostas não sejam consideradas verdades absolutas, porque não são! São meramente o meu ponto de vista.
Um dos principais perigos dessa afirmação é quando se fala em “música boa”. Nos dias de hoje é muito estranho que ainda tentemos impor determinados posicionamentos, e mais, colocá-los como única forma de se ver o mundo. Digo achar estranho porque tivemos momentos históricos que foram terríveis, nos quais algo era empurra goela abaixo por puro interesse e egoísmo. A exemplo temos: qualquer processo de colonização, catequização e escravização, e a ditadura militar de 1964.
É interessante começarmos a entender que não deveríamos mais falar em “cultura”, mas sim, em “culturas”. Edward Tylor, antropólogo britânico, definiu cultura como “um todo complexo” que inclui conhecimentos, crenças, artes, moral, leis, costumes e qualquer outra capacidade ou hábito adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade. Então, acho que a partir daí podemos perceber claramente que cada país tem sua cultura, cada região tem sua cultura, cada estado tem sua cultura, cada cidade tem sua cultura, cada bairro tem sua cultura, cada casa (família, grupo) tem sua cultura e, por fim, cada indivíduo tem sua cultura. Nossa construção sociocultural se dá pela mistura de todas essas culturas e, com isso, podemos perceber que não faz sentido achar que o nosso gosto é o único a ser considerado em todo o mundo. A variedade de padrões estéticos é gigantesca.
A música boa pra mim pode não ser boa pra você! Enquanto você gosta e vê valor na música de Gilberto Gil, tem quem dará preferência a escutar MC Guimê. Por que isso? Porque nós somos DIFERENTES! Temos formações socioculturais DIFERENTES! Dessa maneira, os valores morais, os sensos estéticos, os grupos de afinidades, serão DIFERENTES! E a diferença é uma realidade que deve ser levada em consideração. O problema é quando essa diferença é transformada em desigualdade, em discurso de ódio, daí temos configurado um grave problema, pois estamos gerando intolerância e violência verbal, que muitas vezes chega à física.
Se você se acha melhor que alguém por escutar bossa nova ou chorinho, por favor, repense. Apenas escute, aprecie e propague esses gêneros com consistência a fim de que, as pessoas a quem você vier a apresentar esse tipo de música possa ter uma boa iniciação a esses gênero, sem que nada seja forçado. “E se a pessoa não gostar?”. Ora, é direito dela!
Vale a ressalva de que a música também é utilizada a fim de atender um determinado público e função, visando e contemplando os vários indivíduos e grupos socioculturais, assim, haverá música boa para apreciar de maneira mais introspectiva, música boa para dançar, música boa para ouvir em uma festa, música boa para ambientes como um teatro, música boa para vender roupas, música boa para beber, música boa para fumar, música boa para ir à praia, música boa para manipular, música boa para refletir, enfim, um monte de “pra que?” e “pra quem?”.
Para finalizar, vou fazer minha primeira sugestão: Marcelo Jeneci.
Para mim, um dos grandes nomes da nova geração da música brasileira. Jeneci acompanhou artistas de grande renome como Arnaldo Antunes e Vanessa da Mata por um bom tempo, mostrando-se como um exímio instrumentista e compositor. A música “Amado”, consagrada na voz de Vanessa da Mata, é de sua autoria. Em 2010, ele lança seu primeiro álbum como cantor, instrumentista e compositor. O disco “Feito Pra Acabar” é algo de encher os olhos. A sonoridade é de muita clareza quanto à busca pela estética dos anos 60 e 70, com letras que refletem toda a serenidade, sensibilidade e inteligência de Jeneci. Além disso, ele conta com parceiros de históricos indiscutíveis como Luiz Tatit, José Miguel Wisnik e Arnaldo Antunes. O seu mais recente trabalho foi lançado em 2013, intitulado “De Graça”. Apesar do título, tem o seu valor de comércio, e vale cada centavo. Nesse ponto, Marcelo Jeneci fica sem possibilidade de ser rotulado, apenas podemos dizer que sua vertente é música! Ele transita por vários caminhos estético musicais, misturando vários gêneros e gerando algo plural a nível de textura sonora, adicionando vibrafone e marimba em balada, tímpanos em rock, acordeom em reggae-samba-eletro. E mais, conta com um time forte de instrumentistas, mostra-se mais um vez um incrível instrumentista, um letrista ímpar, um verdadeiro poeta, e traz arranjos para orquestra feitos por nome importante na música brasileira: Eumir Deodato. De suas músicas, farei destaque para as seguintes: “Felicidade”. Composta com Chico César, é uma das canções que melhor tratam desse estado emocional e espiritual que tanto se busca, mas que o compositor paulista deixa claro que é algo que não se procura, você escolhe ser ou não ser. Muito vai depender de como encaramos as chuvas; “Por que nós?”. Em parceria com Luiz Tatit, eles falam dos artistas, cantores, compositores e instrumentistas, antes mais ligados a seus ideais reais, tendo um compromisso firme com sua sensibilidade independentemente de público e sem se prender à teorias; “Tudo bem, Tanto faz”. Marcelo Jeneci, Laura Lavieri e Arnaldo Antunes, retratam cenas de pessoas que não “se levantam” para viver. Pessoas que se prendem na loucura ou inércia da vida contemporânea entregues aos dias sem perceber o que há de melhor na vida: viver.
Já falei demais. Paro por aqui. Deixarei que você, cara(o) leitora (leitor), mergulhe no trabalho de Marcelo Jeneci e descubra que ele ainda faz o Brasil ter música boa. Para quem gostar desse tipo de proposta, claro! E voltarei no próximo mês com mais uma parte dessa série, refletindo um pouco mais sobre as perguntas que surgiram e sugerindo outra produção musical nacional atual.

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