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        Uma das missões do ECIM é incentivar e fomentar a produção de escrita sobre os mais diversos assuntos relacionados e co-relacionados ao campo da educação musical, englobando aspectos metodológicos, históricos, sociais, criativos, performáticos, etc. Tais textos podem ter o caráter inter e transdisciplinar, atendendo a uma necessidade de múltiplas conexões pautadas nos estudos científicos da educação musical mundial. Logo, é perfeitamente comum, neste espaço, a publicação de textos que tragam referências diretas de áreas como a sociologia, etnomusicologia, musicologia histórica, psicologia e qualquer outra que venha enriquecer as discussões propostas pelos autores, que por sua vez, têm o mote da liberdade de expressão como o principal condutor em seu processo criativo.

       

        Disponibilizamos um espaço para que os educadores musicais e acadêmicos da música em geral possam publicar colunas regulares sobre suas práticas, reflexões e assuntos de interesse.  Vale enfatizar que, os autores das colunas ECIM  são docentes e pesquisadores muito atuante em diversas áreas da educação musical, que aceitaram gentilmente o convite de compartilhar seus pensamentos, contribuindo enormemente no fortalecimento de nossa área.

 

        Gratidão a todos vocês, autores​, leitores e pessoas que entendem que, sem a música, a vida perde consideravel parte de seu sentido.

José Luann Veiga

Direção Geral

A VOZ QUE FALA NA VOZ QUE CANTA (FIGURATIVIZAÇÃO MELÓDICA)

Semiótica da Canção

Por

Kemesson Lemos

Olá, caros leitores do ECIM! Estou mais uma vez escrevendo com imenso prazer essa segunda coluna, e assim compartilhando com vocês algumas experiências vivenciadas em sala de aula, e outras frutos de pesquisas e leituras. Antes de qualquer coisa, quero agradecer ao meu amigo José Luan Veiga, o idealizador de tudo isso, pelo convite maravilhoso que me fez para participar desse projeto. Sinto-me honrado. E a vocês, leitores, para quem estaremos direcionando nossas reflexões acerca de música e adjacências. Que vocês possam fazer bom proveito das colunas publicadas neste site, sejam as minhas ou as de outros. Tenho a certeza de que, pelo grau de seriedade com que Luann sempre encarou a música em sua carreira acadêmica, seu critério de escolha dos colunistas faz desse site uma plataforma segura de pesquisa sobre estudos musicais, considerando também o comprometimento de seus participantes. Outra coisa que quero dizer é que, as próximas colunas conservarão uma ligação entre si, ou seja, será algo continuado, pelo menos pelas próximas 4 ou 5 colunas.
Na coluna anterior abordei de forma apenas introdutória acerca de alguns mecanismos de interpretação vocal atrelados aos estudos semióticos da canção, que podem ser encontrados a partir de uma análise lítero-musical, ou seja, a busca de sentido na compatibilidade entre letra e melodia, e de como essa observação auxilia os estudos interpretativos da voz. De modo que pretendo abordar detalhadamente sobre o que seria esses níveis de compatibilidade entre estrutura linguística e melódica.
Desde já, quero dizer que essa compatibilidade, ou níveis de conexão, podem ser norteadores para uma compreensão – diria – lúdica e inteligente da interpretação vocal, todavia, tenho plena convicção de que estou tratando de uma questão relativa, e não pretendo, em hipótese alguma, estabelecer verdades fechadas aqui, uma vez que toda interpretação, como a própria palavra sugere, pressupõe concepções pessoais de observação. Porém, posso afirmar que alguns detalhes são perceptíveis numa análise simples de canção, de modo que algumas situações serão evidentes do ponto de vista linguístico e melódico de uma análise.
Na abordagem teórica sobre semiótica da canção, o escritor Luiz Tatit, em quase em toda sua obra em que aborda esse assunto, diz que a canção possui ou, como ele mesmo afirma – disfarça em nível de tensão melódica – um vínculo embrionário das falas, que são denominados de enunciações entoativas, e que estão tensionados numa estrutura melódica. Algo semelhante às inflexões vocais, que por sua vez apresentam características sonoras como: ascendências, descendências, continuidade, segmentação, dentre outros, porém, enquanto estão na oralidade, são passageiras, vulneráveis ao tempo, mas quando melodiadas, as “falas” tornam-se perenes. De modo que, toda canção tem uma simbiose entre o que se diz (letra) com a forma de dizer (melodia). Sendo assim, as canções apresentam características semelhantes às enunciações entoativas da fala. Essas enunciações podem ser consideradas como fenômenos que desempenham a semântica da discursividade textual e sonora de uma canção, e que infelizmente – agora falo por minha conta – passa despercebido pelo intérprete, muitas vezes. Do contrário, acredito que tais recursos, uma vez observados detalhadamente, são indicativos para a criação de novos caminhos silábicos da interpretação vocal, proporcionando o que comumente se chama de: roupagem musical, ou nova versão. Isso sem desconsiderar o arranjo como parte importante do processo de uma nova abordagem musical, como mencionei na coluna anterior. É claro que os recursos de melismas, vibratos, soprosidades, aveludamento, floreios, improvisos, ou mesmo os sons metálicos, esse último pouco apreciado pela fonoaudiologia, dentre outros, são recursos vocais que, guardando as devidas proporções, dão dinâmica numa interpretação vocal, todavia, ao meu ver, existem outros que antecedem a esses; aqueles em que todo trabalho de técnica vocal deve considerar essencial, por enfatizar a naturalidade entoativa da voz humana, que podem estar assegurados numa simples análise lítero-musical da canção. Embora esses recursos estejam disfarçados em nível de modalização melódica. Não obstante, tal análise serve como dispositivo para novas abordagens silábico-vocais. Ainda mais se considerarmos que as canções são cheias dessas situações entoativas semelhantes à fala. E elas, de algum modo, se enfatizadas, conferem verdade e cumplicidade ao ouvinte. Mas aí são outros tantos que abordaremos em outra oportunidade.
Observando os sons das palavras quanto às suas inflexões, e a que essas inflexões se remetem no âmbito de múltiplos sentidos, notaremos a presença da voz falada na voz cantada. Quando isso é identificado na canção, teremos, portanto, uma modalização melódica à nível de figurativização. Ou seja, uma figura, ou representação melódica similar à fala. Por exemplo, na maioria das canções de Noel Rosa. Citando apenas duas aqui, Palpite Infeliz e Com Quem Roupa?, observamos um nível altíssimo dessas situações figurativas, em que o desenvolvimento melódico, quase numa autonomia rítmica, se compatibiliza às estruturas silábicas do texto, algo muito semelhante ao colóquio, alguém simplesmente conversando, porém, com melodia. De modo que a técnica vocal mais apropriada para essa canção – acredito – seria no mínimo aquela que considera a naturalidade entoativa das enunciações, ou seja, a que enfatiza a presença da fala na voz que canta.

Referências Bibliográficas

COELHO, Wohl, Helena. Técnica Vocal Para Coros, Ed. Sinodal. São Leopondo, RS. 1994
MACHADO, Regina. A Voz Na Canção Popular Brasileira, ed. Ateliê Editorial, SP. 2011.
PEÑA, J. Casanova. Manual de Fonoaudiologia, Ed. Artes médicas, 2ª edição revista. RS. 1988

Anexos

Palavras-chave

semiótica

canção

técnica vocal

música brasileira

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